Quando criança sofri um acidente, nunca mais fui a mesma. O trauma no globo ocular impede-me de lavar os espelhos, fico inerte a dor, observando o pesar do corpo e alma. Sou chamada de louca.
E por quê não seria?
Com o tempo já nem me movia, somente as órbitas secas como binóculos a capturar imagens... e com mais tempo... nem isso.
É impressionante a dor que sinto, tudo lateja, pulsa. Meus batimentos cardíacos ficaram alterados, a dor é aguda, suo frio, os olhos lacrimejam sem meu comando.
Seguro firme o corte querendo juntar as partes da carne cortada, como se quisesse estancar o sangue ou que ele não existisse. Confesso que meu primeiro intuito foi de lamber a ferida, até pus a língua pra fora, mas isso seria animalesco demais e não pegaria bem na frente do outros.
Tentei manter a pose, disfarçar a dor, as lágrimas e a cara de cão carente, afinal era só um corte.